segunda-feira, 27 de junho de 2016

Meus filhos salvaram minha vida, por Beatriz Casadei

A jornalista Beatriz Casadei é mãe de gêmeos. Não foi uma gravidez planejada e tampouco curtida. Mas no depoimento de hoje ela dá duas lições fundamentais: o respeito pelos sentimentos da mãe e como os filhos são capazes de grandes transformações nas nossas vidas.

Pegue um lencinho, respire fundo e veja como essa experiência foi importante para que a Bia amadurecesse e se tornasse uma mãezona.
 
Meus filhos salvaram minha vida
Por Beatriz Casadei
 


Sou Beatriz Casadei, jornalista e mãe dos gêmeos João Gabriel e Pedro Henrique, de 9 anos.


Eu tinha acabado de completar 22 anos. Era recém-formada em jornalismo e já
contratada como apresentadora da Previsão do Tempo, na TV Bandeirantes de Campinas, algo que era sonho para muitos jovens jornalistas. Namorava há apenas três meses. Estava completamente apaixonada e muito feliz. Os primeiros sintomas de que algo estava diferente vieram muito cedo, nem tinha notado que minha menstruação estava atrasada. Eu tomava pílula anticoncepcional, tudo bem, um dia sim outro não, mas achava que nunca iria engravidar, pois na minha família as mulheres tiveram dificuldade, inclusive minha mãe. Eu estava enganada.

Depois de sentir muita fome, sono, dores nos seios e ficar mais sensível e chorona do que já sou, a mãe do meu namorado disse: “Bia, você está grávida, faça um exame”. Ela falou com uma naturalidade espantosa e como eu tinha certeza de que aquilo era um absurdo, eu fiz. Uma semana depois, eu estava no meu trabalho, e soube do resultado por telefone: POSITIVO. Até hoje, quando me lembro dessas palavras, sinto meu coração disparar e minhas pernas bambeiam (juro, estou sentindo isso agora).

Foi aí que veio um medo misturado com vergonha e revolta. Eu que sempre
amei crianças e sonhava em ter filhos, me senti com ódio do mundo e de mim. Como pude ser tão burra? Uma menina estudada, formada, orientada? A primeira pessoa que liguei foi meu namorado. Ele ficou muito feliz e tranquilo. Disse: “eu já sabia”. Aquilo, ao invés de me fazer feliz, me deixou mais irritada: “Claro, não é na barriga dele”.

Não consigo expressar em palavras até hoje como foram os dias que se seguiram. Só não tenho vergonha de falar porque pedi muito perdão a Deus e não me julgo porque cada um é cada um. Uma semana depois contei aos meus pais, que moravam em outra cidade e vieram correndo pra me “socorrer”. Ficaram preocupados, claro, com minha saúde e obviamente queriam que eu
me casasse. Ou era eu que queria casar pra diminuir o desgosto deles. “Oi? Casar? Gente, eu acabei de me formar, sou jovem, não quero casar, não quero ser mãe, pelo amor de Deus, eu quero morrer”. Foi isso que senti. Eu queria morrer porque não tinha coragem de tirar aquele bebê. Me senti num beco sem saída.

Mais uma semana. Estávamos meu namorado e eu na sala do ultrassom. Era véspera de Dia dos Pais. Eu o amava tanto, tanto e disfarçava que estava feliz só para agradá-lo, mas eu não sentia nada, a não ser um profundo desespero. Começamos a ouvir o coraçãozinho. E eu só sentia frio, medo e solidão. Até que o médico disse: “Parabéns papai, que belo presente. Tem dois bebês aqui.
Parabéns mamãe”. Meu Deus. Eu tinha medo de nunca poder ter filho, foi uma gravidez inesperada e ainda espero dois? O que o mundo reserva pra mim? Por que eu? Era o que eu me perguntava. Meu namorado começou a chorar e gritar de alegria. Ele não se continha. Me beijava, abraçava e dizia palavras de conforto: “Estarei sempre com você, dará tudo certo”. O amor que sentia por ele me levou no piloto automático. 


Daí em diante eu vivia pra ele. Meus pais ficaram muito felizes e extasiados de emoção. E eu? Eu me sentia em um lugar escuro, barulhento, confuso. Era como se o mundo virasse de cabeça pra baixo e ninguém ouvia minha voz. E assim resumo um pouco: foi uma gravidez difícil, pesada, perdi cabelos, ganhei peso rapidamente, 32 quilos, vivi inchada. Não foi de risco. Minha saúde era de ferro. Fiquei horrorosa. Chorei todos os dias durante os sete meses de gestação. Desejava morrer todos os dias. Não arrumei a mala dos meus filhos, minha mãe fez tudo. Ela sofria junto em me ver sofrendo. Eu tinha vergonha de sair de casa. O que diriam as pessoas quando vissem uma moça que engravidou do namorado? Puta. Biscate. Burra.

Mas podia ficar pior. Aos 5 meses de gestação, meu namorado disse que não me queria mais. Que faria tudo pelos filhos, que seria pai, mas não queria namorar. Desesperada, fui a um médico que sabia que fazia abortos. Mas não tive coragem de fazer o que me foi proposto: tomar um remédio e esperar contrações em casa e me resolver ali mesmo. Uma força maior não me deixou fazer isso. Mas me sentia um fracasso por não ter coragem.
Com a barriga enorme e muito inchada, fui afastada da TV. Minha chefe na época me deu total apoio e a agradeço até hoje. Me afastou da TV e me colocou no rádio, assim eu ficaria sentadinha. Me senti a mais horrorosa e inútil das mulheres. Eu não conseguia ver beleza em nada, mas ninguém ouvia meus gritos de socorro: “Gente, eu to com medo. Será que alguém pode me ouvir? Estou desesperada de medo. Não to preparada.” Uma tarde me joguei da escada do prédio da emissora em que trabalhava. Frustrada, levantei-me.

Não aconteceu nada. Nem um hematoma. Dirigia sem cinto pra se acaso batesse o carro, seria mais fácil morrer. Uma semana de desespero e o pai dos meus filhos me ligou pedindo perdão, que estava assustado e que me amava sim. Meu mundo clareou um pouco. Eu sofria em silêncio. Ninguém aceita ouvir de uma grávida que ela não está feliz. Então eu fingia estar para não perdê-lo.

Fui afastada do trabalho no inicio dos 7 meses. Não conseguia amarrar meus sapatos sozinha, respirar era difícil e dormir, quase impossível. O medo do parto era terrível. Mas eu só queria me livrar daquela barriga gigante e daquele rosto que eu não reconhecia no espelho. Eu me odiava. Tinha vergonha. 


As contrações começaram de madrugada. Eu já estava na casa em que ia morar com meu “marido”. Mas não sabia o que era uma contração, então esperei amanhecer e só na hora do almoço, do dia seguinte, eu disse que estava com muita dor na lombar e não aguentava mais. Meu médico mandou correr pro hospital.

Chegou a hora. Nem doía tanto assim, mas eu implorei pra fazerem o parto. Não aguentava mais. Meu namorado assistiu a todo o parto muito emocionado. Primeiro veio o João Gabriel, de cesariana. Um minuto e meio depois, o Pedro Henrique. Nasceram com dois quilos e meio cada um, de sete meses. Saudáveis e perfeitos. Graças a Deus. Mas foram direto pra incubadora para amadurecer os pulmões e por conta da icterícia, típica de bebês prematuros. Não sei se fiquei feliz, ainda não conseguia entender o que estava acontecendo. Quem era eu? E eles, quem eram? Eu queria ser aquela Bia de antes. Mas pelo menos, o pai deles estava feliz. 


Perdi muito sangue por conta da dilatação excessiva do útero e fiquei 5 horas no pós-operatório, até ir pro quarto. Meu namorado foi me ver e agradeceu pelos dois presentes que dei a ele. Disse que já os tinha visto, que eram lindos que estavam bem. Foi aí que digo que algo começou a mudar em mim. 

Doze horas depois do parto e cadê os pedacinhos que tiraram de mim? Estava curiosa pra vê-los. Meus seios pingando leite e meus bebês não podiam desfrutar daquilo. Eu os queria. Só pensava nisso. Danem-se minhas estrias recém-adquiridas, dane-se meu pé inchado. Cadê meus bebês? Me levaram até a UTI Neo-natal para visitá-los e quando olhei aqueles pequenos seres, tão indefesos e pequenos, precisando de mim, me ajoelhei no chão do hospital. Com dores da cesariana, me ajoelhei e pedi perdão a eles e a Deus. Falei pra eles que a mãe deles estava ali e que nada de ruim aconteceria enquanto eu estivesse ali. Eram meus. E eu era deles. Ali nascia uma mãe. Ali nascia a mãe do João Gabriel e do Pedro Henrique. De joelhos no hospital.

Fiquei cinco dias amamentando-os no hospital. Costumo dizer que toda dificuldade que veio depois não foi nada perto do medo que passei sozinha durante a gravidez. Não que eu estivesse realmente sozinha, porque tinha muita gente me dando apoio. Eu estava sozinha dentro de mim.

Larguei meu emprego na Band. Mudei pra Guarulhos. Me casei no civil. Fiquei um ano casada. Mas um mês depois que meus gêmeos completaram um aninho,
meu marido pediu a separação. A dor foi tão grande. Muito maior que alguma outra que eu já tivesse sentido. Fiquei sozinha: eu e meus meninos. Passei muitas noites chorando debruçada nos berços, enquanto eles dormiam. Eu tinha medo. Mas dessa vez, eu tinha forças. Eles eram minha vida. Digo que João e Pedro me fizeram resistir a toda dor e medo que já tive na vida. Foram eles. Eles vieram pra dizer: mãe, estamos aqui com você. Seja forte. Você não está sozinha.








Sofri de amor pelo pai dos meus filhos durante quatro anos. O vi trocar de namoradas inúmeras vezes. Sempre pensei em ter minha família de volta. E
senti muita solidão. Mas dei a volta por cima. Vivi minha juventude, mesmo com meus dois meninos. E sentia muito orgulho deles. Refiz minha vida, voltei ao mercado de trabalho, casei de novo. Tenho dois filhos que são crianças maravilhosas, nunca me deram trabalho. São amados e queridos por todos. E conto minha história pra que outras mamães não se julguem por não ficar feliz
 com a notícia de uma gravidez. Não são todas as mulheres que estão preparadas pra isso. E que, quem estiver ao lado da futura mãe, que a escute, a ajude, ela precisa ser ouvida. Mas mais do que isso, gostaria de passar a mensagem de que nada acontece por acaso. Tudo tem um propósito. Não sei o que seria de mim sem meus gêmeos que me tornaram a mulher que sou hoje.

Por isso eu costumo dizer que João e Pedro salvaram a minha vida e fazem isso até hoje. Eles têm uma missão, que desconfio qual seja, mas deixo eles me ensinarem a cada dia. Amor é pouco. Sinto profundo respeito e admiração pelos meus gêmeos.




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